– Cancioneiro Popular Português – José leite de Vasconcellos

  • Cancioneiro popular português / coligido por J. Leite de Vasconcelos ; coord. e intr. de Maria Arminda Zaluar Nunes. Coimbra : Universidade, 1975.

VOLUME  I

O pobre do pescador
Já lá morreu afogado:
Foi à pesca e lá ficou
Nas ondas do mar rolado.

p.xxxv

Aí vem o barco à vela,
Aí vem sardinha boa,
Aí vem o meu amor,
Assentadinho na proa!
id.

Ó minha caninha verde,
Ó minha Sanjoaneira!
O peixinho foi vendido,
O ganho vai na algibeira.
xxxvi

As ondas do mar são brancas,
E no meio amarelas,
Tristes daqueles que nascem
Para morrer dentro delas.
20

No meio daquele mar
Anda uma pombinha branca,
Não é pomba, não é nada,
É o mar que se alevanta.

O mar também é casado,
O mar também tem mulher,
É casado com a areia
Dá-lhe beijos quando quer.

Ó mar tu és um leão,
Tudo queres comer;
Quem sabe, no teu cantar,
As coisas que quer’s dizer?

Ó mar largo, ó mar largo,
Ó berço do marinheiro,
às tuas águas salgadas
Vai banhar-se o mundo inteiro.
21

No cantar só a sereia,
Na formosura o pavão,
Na brancura só a pomba,
E a rola na perfeição.
31

VI- MODAS
A roupa do meu amor
Não é lavada no rio:
É lavada no mar alto
à sombrinha do navio.

Não é lavada no rio
A roupa do meu amor:
É lavada no mar largo
à sombrinha do vapor.
118

Já corri o mar em roda
Co’ma vela branca acesa;
Em todo o mar achei fundura
Só em ti pouca firmeza.

Já corri o mar em volta
nas asas duma cegonha;
Não há que fiar nos homens,
Qu’eles não têm vergonha!
134

Já passei o mar a nado,
nas ondas do teu cabelo,
Agora já posso dizer:
-Já passei o mar sem medo!

Já passei o mar a nado,
Co’ma vela branca acesa;
Em todo o mar topei fundo
Só em ti pouca firmeza.

Ó mar manso, ó mar manso,
Ó mar manso na baía;
Todas as caras trigueirass
Têm a sua galantaria.

Ó mar manso, ó mar manso,
Ó mar manso na baía,
Quem tem ciúmes de amor,
Ouve falar, desconfia.
146

O meu amor, coitadinho…
O meu amor coitadinho,
Anda na praia brincando;
Por amor de uma ondinha,
A maré ia-o levando!

O meu amor, coitadinho,
Anda ao frio, anda à neve:
À semana não no vejo,
Ao domingo não me escreve!
147

Olha a pombinha!
Olha a pombinha,
caíu no mar!
Leva-a para casa
Deixa-a lá ficar.

Olha a pombinha,
caíu no laço!
Dá-me um beijinho,
Que eu dou-te um abraço.
152

Pelo Mar abaixo
Pelo mar abaixo
vai um cobertor;
Quem pega e não pega?
Pega o meu amor.

Pelo mar abaixo
vai uma cestinha;
Quem pega e não pega?
Pego eu que é minha.

Pelo mar abaixo
Vai uma panela (tijela)
Quem pega e não pega?
Pega o dono dela.

Pelo mar abaixo
Vai um tinteiro.
Quem pega e não pega?
Pega o meu dinheiro.
(Cinfães)
154-5

Polo mar abaixo
Vai uma caniça,
Quem acod’ó fogo
Em casa da carriça.

Polo mar abaixo
Vai uma canastra.
Quem acod’ó fogo
Em casa da cabaça.

c)
Por o mar abaixo
Vai uma cabaça,
Se ela leva o vi nho,
leva toda a graça.

Por o mar abaixo
Vai uma gaivota,
Leva no bico
A tranca da porta.

Por o mar abaixo
Vai uma galinha
Se ela leva ovos,
pitinha pitinha.

Por o mar abaixo
Vai uma raposa,
Leva o rabo aberto,
Não torna p’ra casa.
(Ponte do Lima)

Quem me dera…
Quem me dera ver
O meu bem agora
Com uma canoa
Pela barra fora.

Quem me dera ver
O meu amorzinho,
Só para saber
Se está melhorzinho.

Quem me dera ir
Onde está meu bem,
Inda que gastasse
Quanto meu pai tem.

Quem me dera estar
No teu pensamento,
Como está o sumo
Do limão lá dentro.

Quem me dera estar
no teu pensamento,
Como estás no meu
Há já tanto tempo.
156

A Sereia
Sereia, que anda no mar
Anda à roda do vapor;
Inda está para nascer
Quem há de ser meu amor.

Sereia que anda no mar
Anda à roda, anda à roda;
Inda está para nascer
Quem há de se minha sogra.

Sereia que anda no mar
Anda à roda sem parar;
Inda está para nascer
Quem há de ser meu par.
p.160

Sou varina, sou varina
Oh, ai!
Sou varina, sou de Ovar;
Se eu sou varina ou não
Oh, ai!
Reparem no meu trajar.

Reparem no meu trajar
Oh, ai!
Raparem pr’á canastrinha;
A andar de porta em porta:
Oh, ai!
Quem compra abela sardinha?

Quem compra a bela sardinha?
Oh, ai!
Quem compra a bela pescada?
A vida de uma marina,
Oh, ai!
É ‘ma vida amargurada.
(Aveiro)
p.161

Menina que tanto sabe,
Responda-me a esta pergunta.
Que ciência tem o mar,
Que tanta água em si junta?

A ciência que o mar tem
Não é coisa de pasmar:
Não há rio, nem regato
Que não vá ao mar parar.
p.182

Ó poeta, que tanto sabes,
Responde-m’a esta pergunta:
Que potência tem o mar
Que tanta água em si aguenta?

A ciência que o mar tem
Não é coisa de espantar:
Não há fonte nem regato
Que ao mar não vá parar:
186
~—-
Eu venho do mar da beira
Eu venho da beira-ò-mar;
Eu venho aqui de tão longe,
À fama do teu cantar.
197

Minha mãe é vareira
Eu com ela me criei:
Vou cantar a vareira
Que outra moda não sei.
198

Trabalhadores do mar

A laranja, quando nasce,
nasce com a casca dura,
Assim é o meu amor:
até nas ondas se apruma.

A roupa do marinheiro
Não é lavada no rio;
É lavada no mar largo;
à beirinha do naviuo.

A roupa do meu patrão
Não é lavada no rio;
É lavada no mar,
Na borda do seu navio.
(Minho)
p.264

A vida do pescador
É uma vida tirana:
Toda a semana no mar,
Só uma noite na cama.

Adeus, adeus, que me vou,
Já perco vista da terra
Já não vejo senão água
E este pau que me leva!


Aí vem o barco à vela
Aí vem sardinha boa,
Aí vem o meu amor
Assentadinho na proa.

Aí vêm as armações
carregadas de sardinha,
Vem o meu amor à proa
Amanhando pescadinha.

Além vêm barcos à vela
Deus lhes dê vento a favor,
Que vem assntado ao leme
Francisquinho, meu amor.

Aquele barquinho novo
Jura que me há-de levar;
Eu juro que não hei-de ir
Passar as ondas do mar.
p.264

Às dez horas parte o barco,
às onze larga a vela;
Ao meio dia em ponto
Parte o meu amor da terra.

As ondas do mar lá fora
De bravas são amarelas,
Ai da mãe que tem um filho
Para andar em cima delas.

As ondas do mar são brancas
Por dentro são amarelas,
Tristes daqueles que nascem
Para morrer dentro delas.

As ondas do mar são verdes,
As do meio amarelas,
Coitadinho de quem nas
Para andar no meio delas.

….
Cada vez que vejo vir
às voltas a praia-mar,
Lembro.me do meu amor,
Quando vem para me falar.

Cada vez que vejo vir
Barcos pequenos à vela,
Cuido que é o meu bem
Que vem de fora da terra.


Diga-me senhor piloto,
Que do mar sabe a lição,
Diga-me do norte ao sul
Quantas léguas do mar vão?

Diz-me se remas ao bico
Ou se alas de revés;
Eu sou rapriga nova,
Vou-me botar òs teus pés.

Do convés do meu navio
Vi minha dama à janela,
Eu vi-a tão bonitinha
Que de nado fui a ela.
265

Embarque senhor, embarque,
Molhe o pé não molhe a meia,
Também o senhor do mundo
Embarcou na maré cheia.

Embarquei-me no mar largo,
Já perdi vistas à terra,
Já não vejo senão céu
Água e vento que me leva.

Eu cá vou pelo mar dentro
Já não vejo minha terra,
Só vejo o mar e vento
E a água que me leva.


Eu corri o mar à roda,
Com uma vela branca acesa;
No mar não achei fundura,
Em vós não achei firmeza.

Eu corri o mar à roda,
Nas asas dumas formigas;
Já perco tacto à terra,
E a amizade às raparigas.

Eu deitei a rede ao mar,
A fita da mesma linha,
Para apanhar a fataça,
E juntamente a tainha.

1
Eu fui ao mar às laranjas
Coisa que lá não havia;
Eu fiquei admirada
Das ondas que o mar fazia.

Das ondas que o mar fazia
Eu fiquei admirada,
Eu fui ao mar às laranjas,
Vim de lá toda molhada.

266
Fui ò mar pescar de cana,
Apanhei uma garoupa:
Esta é para o meu prato,
Não sei se apanharei outra.

Já fui mar, fui navio,
Agora sou vergantim,
Já fui amado de um anjo
Agora dum serafim.

Eu vejo mar, vejo terra,
E vejo a banda de além;
Vejo vir barcos de vela,
Só o meu amor lá não vem.

Fui à praia passear,
Vi a zorra num rochedo;
O peixe era tão grande,
Que a sardinha tinha medo!

Já lá vai pelo mar fora
Quem a mim tira o chapéu,
Deus o leve, Deus o traga
Como às estrelas no Céu.
267

Já me vejo no mar largo
Já perdi norte à terra;
Já não vejo senão água,
Mar e vento que me leva.

1
Já o mar não leva água
Senão folhas de marfim;
Onde irei lavar o lenço,
Ao meu amor Joaquim?

Já o mar não leva água
Senão folhas de papel.
Onde irei lavar o lenço
Ó meu amor Manuel?

1
Mandei fazer um barquinho
Da casquinha de um limão,
Para embarcar os teus olhos
Dentro do meu coração.

2
Mandei fazer um barquinho
De um bocadinho de trevo,
Para me embarcar contigo,
Que sozinho tenho medo.~


-Maria a canoa virou!
– Se ela virou
Deixai-la virar,
Peixinho do rio,
Camarão do mar.
268


Não quero homem do mar
Que traz o gabão molhado:
quero um mocinho da terra
Que cheira a figo torrado.


Não segueis os trigos loiros,
Deixai-os amadurar:
Nas ondas do mar é que anda
Quem nos ha se vir segar.


Nas ondas do mar se criam
Peixinhos e salmonetes:
Também na terra se criam
Rosas para ramalhetes.


Não quero amor ferreiro
Que é caro pelo lavar:
Quero amor marinheiro
Que vem lavado do mar.
269

O amor do marinheiro
Não dura senão uma hora,
Dá-lhe o vento, vira a vela,
Tira o chapéu, vai-se embora.

Ó mar bravo, ó mar bravo,
Que andas assim furioso!
Se tu mar, foras casado,
Serias mais amoroso.

Ó mar, colchão dos navios
Ó cama dos marinheiros,
Ó navio que me levaste
Os meus amores verdadeiros.


O meu amor é um cravo,
Anda no mar em cruzeiro,
Inda vem fora da barra
Já em casa está o cheiro.

O meu amor é um cravo,
Que anda no mar, em cruzeiro,
Deu-lhe o vento, desfolhou-se,
Arrasou-se o mar com cheiro.
271

Ó meu amor não te embarques
Em dia de S. Simão,
Que ele é santo de barrete,
Também dá seu trambolhão.

O meu amor quer-me tanto,
Que até ao mar me levou,
Numa conchinha de prata
Ramos de ouro lhe deitou.


Senhor arrais do barco,
Pelo amor de Deus me leve,
Que as tranças do meu cabelo,
Servem de cordas para o leme.
272

Pus-me a escrever na areia,
O meu tinteiro era o mar,
As ondas vinham brincando,
Para meu o meu nome apagar.

Quem embarca, quem embarca
Quem vem comigo, quem vem?
Quem embarca nos meus braços (olhos)
Que linda maré que tem.
273

Se foras lá fora ao mar,
Não me leves no cuidado;
Deita-te à sombra da vela,
Podes dormir descansado.

Se o mar fosse de leite,
E as ondas de requeijão,
Os homens do mar comiam
As ondas do mar com pão.

Se tu queres vir comigo,
Ó meu amor, anda anda,
Lá no meio desses mares
Faremos uma varanda.

Tenho um navio no mar
com vinte e cinco janelas,
Para embarcar saudades,
Que já não posso com elas.

Tenho um navio no mar
com vinte e cinco janelas,
No dia em que te não vejo
Não abro nenhuma delas!

Vejo mar e vejo terra,
E vejo a banda d’além,
Vejo ir barcos à vela,
Só o meu amor é que não.

Vento do mar é mareiro,
Faz andar o barco à vela,
Faz andar o meu amor
Longe, por fora da terra.
75

X AMORES, AMORES
Até os peixes no mar,
Aqueles lá mais ao fundo,
Também têm os seus amores,
Como nós neste mundo.
307

Enche o mar, vaza a maré,
Fica a praia descoberta;
Vai-se um amor vem um cento,
Não vi coisinha mais certa.
311

Eu hei-de mandar fazer
Altas varandas do mar
Para acabar de aprender
A ciência de amar.
312

Fui ao mar buscar água
Numa bacia de prata
Tomar amores não custa
Deixá-los é que me mata!
314

O mar pediu a Deus peixes
Para andar acompnhado:
Quando o mar quer companhia,
Que fará um desgraçado!

O mar pediu a Deus peixes,
Pela vida o pescador;
Quando o mar quer companhia,
Que fará quem tem amor?
324

Os meus olhos são anzóis
Que pescam no mar sem rede;
O amor que não é firme,
Não se faz cabedal dele.

Os peixes do frio mar
Também nadam pelo fundo;
Também têm os seus amores
Como nós cá pelo mundo.
326

Botei os olhos ao céu,
Lá os trago a nadar…
Eu perdi os meus sentidos,
Não os torno a achar.
339

As ondas do mar são verdes
Lá longe parecem tristes;
Diz, amor, como passaste
Os dias que me não viste(s)
365

No meio do mar há rosas,
Que bem lhe vejo os botões;
Bem vejo carinhas lindas
Mas não vejo corações.
368

Tenho dentro do meu peito
Duas espinhas (escamas) de peixe,
UUma diz que te não ame,
Outra diz que te não deixe.
370

Eu nasci à borda de água,
Criei-me na fresquidão,
Quem me quiser, que me busque,
onde estiver me acharão.

Ó mar, abaixai as ondas,
Que eu quero apanhar um peixe.
Eu quero deixar o mundo,
Antes que o mundo me deixe.
374

Nas ondas do mar lá fora
Tenho quem me queira bem,
Se não é na primeira onda,
É na segunda que vem.
377

Se fores ao mar caçar,
Leva redinhas de linho;
Hás de me cair nos braços,
Hás de ser o meu peixinho.
378

Pescador que vai à pesca
Não vai por pilhar o peixe,
Vai fazer senha (sinal) ao amor,
Com medo que o amor o deixe.
385

Botei um lenço ao mar,
As pontas foram ao fundo;
Eu amei-te às econsdidas,
Já o sabe todo o mundo…
388

Fui ao mar às laranjas,
Não achei senão orégos (oregãos)
Andam aqui namorados,
Querem fazer os mais cegos.
390

Pus-me a fazer na areia
O retrato do meu bem;
Escrevi, apaguei logo,
Com medo que viesse alguém.
394

Debaixo das frias ondas
Cansa o peixe de nadar;
Só eu não canso, menina,
De te querer e adorar.
460

Eu no mar e tu no mar
Ambos andamos perdidos;
Eu no mar dos agrados,
Tu no mar dos sentidos.
407

Eu ‘stava para embarcar,
Co’um pé dentro, outro cá fora,
Avistei o meu amor
-Adeus, barco, vai-te embora!
407

O sete estrelo…

Ó luar que alumeias
Lá no mar os pescadores;
Alumeia-me na terra
Quero ver os meus amores.
432

O mar anda salpicado
de erva doce miudinha;
Assim eu seja de Deus,
Como tu hás de ser minha.

O meu amor foi-se embora,
Não se despediu de mim;
O mar se lhe faça areia
E as ondas num jardim.

O meu amor embarcou,
Não se despediu de mim;
O mar se lhe torne em rosas,
O navio num jardim
Os mastros em açucenas,
Que não se esqueça de mim.
433.

Ó mar, ó varandas de ouro,
Cortinados de veludo,
Inda espero de lograr
Mar e varandas e tudo.
~
O mar pediu a Deus peixes
Para andar acompanhado;
Quando o mar quer companhia,
Que fará um desgraçado.
……

VOLUME II

Da minha janela à tua,
do meu coraçao ao teu
Vai um mar de saudades
o navegante sou eu.
24

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s